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A Mulher de Preto 
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A Mulher de Preto 

de Machado de Assis 

CAPTULO I 
A primeira vez que o dr. Estvo Soares falou ao deputado Meneses foi no 
Teatro Lrico no tempo da memorvel luta entre lagrustas e chartonistas. Um amigo 
comum os apresentou ao outro. No fim da noite separaram-se oferecendo cada um 
deles os seus servios e trocando os respectivos cartes de visita. 

S dois meses depois encontraram-se outra vez. 

Estvo Soares teve de ir  casa de um ministro de Estado para saber de 
uns papis relativos a um parente da provncia, e a encontrou o deputado Meneses, 
que acabava de ter uma conferncia poltica. 

Houve sincero prazer em ambos encontrando-se pela segunda vez; e 
Meneses arrancou de Estvo a promessa de que iria  casa dele da a poucos 
dias. 

O ministro depressa despachou o jovem mdico. 

Chegando ao corredor, Estvo foi surpreendido com uma tremenda btega 
dgua, que nesse momento caa, e comeava a alagar a rua. 

O rapaz olhou a um e outro lado a ver se passava algum veculo vazio, mas 
procurou inutilmente; todos que passavam iam ocupados. 

Apenas  porta estava um coup vazio  espera de algum, que o rapaz 
sups ser o deputado. 

Da a alguns minutos desce com efeito o representante da nao, e admirouse 
de ver o mdico ainda  porta. 

 Que quer? disse-lhe Estvo; a chuva impediu-me de sair; aqui fiquei a 
ver se passa um tlburi. 
  natural que no passe, e nesse caso ofereo-lhe um lugar no meu 
coup. Venha. 
 Perdo; mas  um incmodo... 
 Ora, incmodo!  um prazer. Vou deix-lo em casa. Onde mora? 
 Rua da Misericrdia n... 
 Bem, suba. 
Estvo hesitou um pouco; mas no podia deixar de subir sem ofender o 
digno homem que de to boa vontade lhe fazia um obsquio. 

Subiram. 

Mas em vez de mandar o cocheiro para a Rua da Misericrdia, o deputado 
gritou: 

 Joo, para casa! 
E entrou.
Estvo olhou para ele admirado.



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 J sei, disse-lhe Meneses; admira-se de ver que faltei  minha palavra; 
mas eu desejo apenas que fique conhecendo a minha casa a fim de l voltar quanto 
antes. 
O coup rolava j pela rua fora debaixo de uma chuva torrencial. 

Meneses foi o primeiro que rompeu o silncio de alguns minutos, dizendo ao 
jovem amigo: 

 Espero que o romance da nossa amizade no termine no primeiro 
captulo. 
Estvo, que j reparara nas maneiras solcitas do deputado, ficou 
inteiramente pasmado quando lhe ouviu falar no romance da amizade. A razo era 
simples. O amigo que os havia apresentado no Teatro Lrico disse no dia seguinte: 

 Meneses  um misantropo, e um ctico; no cr em nada, nem estima 
ningum. Na poltica como na sociedade faz um papel puramente negativo. 
Esta era a impresso com que Estvo, apesar da simpatia que o arrastava, 
falou a segunda vez a Meneses, e admirava-se de tudo, das maneiras, das palavras, 
e do tom de afeto que elas pareciam revelar. 

 linguagem do deputado o jovem mdico respondeu com igual franqueza. 

 Por que acabaremos no primeiro captulo? perguntou ele; um amigo no 
 coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses. 
 Dos deuses! disse Meneses rindo; j vejo que  pago. 
 Alguma coisa,  verdade; mas no bom sentido, respondeu Estvo rindo 
tambm. Minha vida assemelha-se um pouco  de Ulisses... 
 Tem ao menos uma taca, sua ptria, e uma Penlope, sua esposa. 
 Nem uma nem outra. 
 Ento entender-nos-emos. 
Dizendo isto o deputado voltou a cara para o outro lado, vendo a chuva que 
caa na vidraa da portinhola. 

Decorreram dois ou trs minutos, durante os quais Estvo teve tempo de 
contemplar a seu gosto o companheiro de viagem. 

Meneses voltou-se e entrou em novo assunto. 

Quando o coup entrou na Rua do Lavradio, Meneses disse ao mdico: 

 Moro nesta rua; estamos perto de casa. Promete-me que h de vir ver-me 
algumas vezes? 
 Amanh mesmo. 
 Bem. Como vai a sua clnica? 
 Apenas comeo, disse Estvo; trabalho pouco; mas espero fazer alguma 
coisa. 
 O seu companheiro, na noite em que mo apresentou, disse-me que o 
senhor  moo de muito merecimento. 
 Tenho vontade de fazer alguma coisa. 
Da a dez minutos parava o coup  porta de uma casa da Rua do Lavradio. 


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Apearam-se os dois e subiram. 

Meneses mostrou a Estvo o seu gabinete de trabalho, onde haviam duas 
longas estantes de livros. 

  a minha famlia, disse o deputado mostrando os livros. Histria, 
filosofia, poesia... e alguns livros de poltica. Aqui estudo e trabalho. Quando c vier 
 aqui que o hei de receber. 
Estvo prometeu voltar no dia seguinte, e desceu para entrar no coup que 
esperava por ele, e que o levou  Rua da Misericrdia. 

Entrando em casa Estvo dizia consigo: 

Onde est a misantropia daquele homem? As maneiras de misantropo so 
mais rudes do que as dele; salvo se ele, mais feliz do que Digenes, achou em mim 

o homem que procurava. 
CAPTULO II 
Estevo era o tipo do rapaz srio. Tinha talento, ambio e vontade de 
saber, trs armas poderosas nas mos de um homem que tenha conscincia de si. 
Desde os dezesseis anos a sua vida foi um estudo constante, aturado e profundo. 
Destinado ao curso mdico, Estvo entrou na academia um pouco forado; no 
queria desobedecer ao pai. A sua vocao era toda para as matemticas. Que 
importa? disse ele ao saber da resoluo paterna; estudarei a medicina e a 
matemtica. Com efeito teve tempo para uma e outra coisa; teve tempo ainda para 
estudar a literatura, e as principais obras da antigidade e contemporneas eram-lhe 
to familiares como os tratados de operaes e de higiene. 

Para estudar tanto, foi-lhe preciso sacrificar uma parte da sade. Estvo 
aos vinte e quatro anos adquirira uma magreza, que no era a dos dezesseis; tinha 
a tez plida e a cabea pendia-lhe um pouco para a frente pelo longo hbito da 
leitura. Mas esses vestgios de uma longa aplicao intelectual no lhe alteraram a 
regularidade e harmonia das feies, nem os olhos perderam nos livros o brilho e a 
expresso. Era alm disso naturalmente elegante, no digo enfeitado, que  coisa 
diferente: era elegante nas maneiras, na atitude, no sorriso, no trajo, tudo mesclado 
de uma certa severidade que era o cunho do seu carter. Podia-se notar-lhe muitas 
infraes ao cdigo da moda; ningum poderia dizer que ele faltasse nunca s boas 
regras do gentleman. 

Perdera os pais aos vinte anos, mas ficara-lhe bastante juzo para continuar 
sozinho a viagem do mundo. O estudo serviu-lhe de refgio e bordo. No sabia 
nada do que era o amor. Ocupara-se tanto com a cabea que esquecera-se de que 
tinha um corao dentro do peito. No se infira daqui que Estvo fosse puramente 
um positivista. Pelo contrrio, a alma dele possua ainda em toda a plenitude da 
graa e da fora as duas asas que a natureza lhe dera. No raras vezes rompia ela 
do crcere da carne para ir correr os espaos do cu, em busca de no sei que ideal 
mal definido, obscuro, incerto. Quando voltava desses xtases, Estvo curava-se 
deles enterrando-se nos volumes  cata de uma verdade cientfica. Newton era-lhe o 
antdoto de Goethe. 

Alm disso, Estvo tinha idias singulares. Havia um padre, amigo dele, 
rapaz de trinta anos, da escola de Fnelon, que entrava com Telmaco na ilha de 


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Calipso. Ora, o padre dizia muitas vezes a Estvo que s uma coisa lhe faltava 
para ser completo: era casar-se. 

 Quando voc tiver, dizia-lhe, uma mulher amada e amante ao p de si, 
ser um homem feliz e completo. Dividir ento o tempo entre as duas coisas mais 
elevadas que a natureza deu ao homem, a inteligncia e o corao. Nesse dia quero 
eu mesmo cas-lo... 
 Padre Lus, respondia Estvo, faa-me ento o servio completo: tragame 
a mulher e a bno. 
O padre sorria-se ao ouvir a resposta do mdico, e como o sorriso parecia a 
Estvo uma nova pergunta, o mdico continuava: 

 Se encontrar uma mulher to completa como eu exijo, afirmo-lhe que me 
casarei. Dir que as obras humanas so imperfeitas, e eu no contestarei, padre 
Lus; mas nesse caso deixe-me caminhar s com as minhas imperfeies. 
Daqui engendrava-se sempre uma discusso, que se animava e crescia at 

o ponto em que Estvo conclua por este modo: 
 Padre Lus, uma menina que deixa as bonecas para ir decorar 
mecanicamente alguns livros mal escolhidos; que interrompe uma lio para ouvir 
contar uma cena de namoro; que em matria de arte s conhece os figurinos 
parisienses; que deixa as calas para entrar no baile, e que antes de suspirar por um 
homem, examina-lhe a correo da gravata, e o apertado do botim; padre Lus, esta 
menina pode vir a ser um esplndido ornamento de salo e at uma fecunda me de 
famlia, mas nunca ser uma mulher. 
Esta sentena de Estvo tinha o defeito de certas regras absolutas. Por 
isso, o padre dizia-lhe sempre: 

 Tem voc razo; mas eu no lhe digo que case com a regra; procure a 
exceo que h de encontrar e leve-a ao altar, onde eu estarei para os unir. 
Tais eram os sentimentos de Estvo em relao ao amor e  mulher. A 
natureza dera-lhe em parte esses sentimentos; mas em parte adquiriu-os ele nos 
livros. Exigia a perfeio intelectual e moral de uma Helosa; e partia da exceo 
para estabelecer uma regra. Era intolerante para os erros veniais. No os 
reconhecia como tais. No h erro venial, dizia ele, em matria de costumes e de 
amor. 

Contribura para esta rigidez de nimo o espetculo da prpria famlia de 
Estvo. At aos vinte anos foi ele testemunha do que era a santidade do amor 
mantido pela virtude domstica. Sua me, que morrera com trinta e oito anos, amou 

o marido at os ltimos dias, e poucos meses lhe sobreviveu. Estvo soube que 
fora ardente e entusistico o amor de seus pais, na estao do noivado, durante a 
manh conjugal: conheceu-o assim por tradio; mas na tarde conjugal a que ele 
assistiu viu o amor calmo, solcito e confiante, cheio de dedicao e respeito, 
praticado como um culto; sem recriminaes nem pesares, e to profundo como no 
primeiro dia. Os pais de Estvo morreram amados e felizes na tranqila serenidade 
do dever. 

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No nimo de Estvo, o amor que funda a famlia devia ser aquilo ou no 
seria nada. Era justia; mas a intolerncia de Estvo comeava na convico que 
ele tinha de que com a dele morrera a ltima famlia, e fora com ela a derradeira 
tradio do amor. Que era preciso para derrubar todo este sistema, ainda que 
momentneo? Uma coisa pequenssima: um sorriso e dois olhos. 

Mas como esses dois olhos no apareciam, Estvo entregava-se na maior 
parte do tempo aos seus estudos cientficos, empregando as horas vagas em 
algumas distraes que o no prendiam por muito tempo. 

Morava s; tinha um escravo, da mesma idade que ele, e cria da casa do pai 

 mais irmo do que escravo, na dedicao e no afeto. Recebia alguns amigos, a 
quem visitava de quando em quando, entre os quais inclumos o jovem padre Lus, a 
quem Estvo chamava  Plato de sotaina. 
Naturalmente bom e afetuoso, generoso e cavalheiresco, sem dios nem 
rancores, entusiasta por todas as coisas boas e verdadeiras, tal era o dr. Estvo 
Soares, aos vinte e quatro anos de idade. 

Do seu retrato fsico j dissemos alguma coisa. Bastar acrescentar que 
tinha uma bela cabea, coberta de bastos cabelos castanhos, dois olhos da mesma 
cor, vivos e observadores; a palidez do rosto fazia realar o bigode naturalmente 
encaracolado. Era alto e tinha mos admirveis. 

CAPTULO III 
Estevo Soares visitou Meneses no dia seguinte. 

O deputado esperava-o, e recebeu-o como se fosse um amigo velho. 
Estevo marcara a hora da visita, que impossibilitava a presena de Meneses na 
Cmara; mas o deputado importou-se pouco com isso: no foi  Cmara. Mas teve a 
delicadeza de o no dizer a Estvo. 

Meneses estava no gabinete quando o criado anunciou-lhe a chegada do 
mdico. Foi receb-lo  porta. 

 Pontual como um rei, disse-lhe alegremente. 
 Era dever. Lembro-lhe que no me esqueci. 
 E agradeo-lho. 
Sentaram-se os dois. 

 Agradeo-lho porque eu receava sobretudo que me houvesse 
compreendido mal; e que os impulsos da minha simpatia no merecessem da sua 
parte nenhuma considerao... 
Estvo ia protestar. 

 Perdo, continuou Meneses, bem vejo que me enganei, e  por isso que 
lhe agradeo. Eu no sou rapaz; tenho 47 anos; e para a sua idade as relaes de 
um homem como eu j no tm valor. 
 A velhice, quando  respeitvel, deve ser respeitada; e amada, quando  
amvel. Mas V. Excia. no  velho; tem os cabelos apenas grisalhos: pode-se dizer 
que est na segunda mocidade. 
 Parece-lhe isso... 

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 Parece e . 
 Seja como for, disse Meneses, a verdade  que podemos ser amigos. 
Quantos anos tem? 
 Vinte e quatro. 
 Olhe l; podia ser meu filho. Tem seus pais vivos? 
 Morreram h quatro anos. 
 Lembra-me haver dito que era solteiro... 
  verdade. 
 De maneira que os seus cuidados so todos para a cincia? 
  a minha esposa. 
 Sim, a sua esposa intelectual; mas essa no basta a um homem como o 
senhor... Enfim, isso  com o tempo; est ainda moo. 
Durante este dilogo, Estvo contemplava e observava Meneses, em cujo 
rosto batia a claridade que entrava por uma das janelas. Era uma cabea severa, 
cheia de cabelos j grisalhos, que lhe caam em gracioso desalinho. Tinha os olhos 
negros e um pouco amortecidos; adivinhava-se porm que deviam ter sido vivos e 
ardentes. As suas tambm grisalhas eram como as de lord Palmerston, segundo 
dizem as gravuras. No tinha rugas de velhice; tinha uma ruga na testa, entre as 
sobrancelhas, indcio de concentrao de esprito, e no vestgio do tempo. A testa 
era alta, o queixo e as mas do rosto um pouco salientes. Adivinhava-se que devia 
ter sido formoso no tempo da primeira mocidade; e antevia-se j uma velhice 
imponente e augusta. Sorria de quando em quando; e o sorriso, embora aquele 
rosto no fosse de um ancio, produzia uma impresso singular; parecia um raio de 
lua no meio de uma velha runa.  que o sorriso era amvel, mas no era alegre. 

Todo aquele conjunto impressionava e atraa; Estvo sentia-se cada vez 
mais arrastado para aquele homem, que o procurava, e lhe estendia a mo. 

A conversa continuou no tom afetuoso com que comeara; a primeira 
entrevista da amizade  o oposto da primeira entrevista do amor; nesta a mudez  a 
grande eloqncia; naquela inspira-se e ganha-se a confiana, pela exposio 
franca dos sentimentos e das idias. 

No se falou de poltica. Estvo aludiu de passagem s funes de 
Meneses; mas foi um verdadeiro incidente a que o deputado no prestou ateno. 

No fim de uma hora, Estvo levantou-se para sair; tinha de ir ver um 
doente. 

 O motivo  sagrado; seno retinha-o. 
 Mas eu voltarei outras vezes. 
 Sem dvida alguma, e eu irei v-lo algumas vezes. Se no fim de quinze 
dias no se aborrecer... Olhe, venha de tarde; janta algumas vezes comigo; depois 
da Cmara estou completamente livre. 
Estvo saiu prometendo tudo. 

Voltou l, com efeito, e jantou duas vezes com o deputado, que tambm 
visitou Estvo em casa; foram ao teatro juntos; relacionaram-se intimamente com 
as famlias conhecidas. No fim de um ms eram dois amigos velhos. Tinham 
observado reciprocamente o carter e os sentimentos. Meneses gostava de ver a 
seriedade do mdico e o seu bom senso; estimava-o com as suas intolerncias, 
aplaudindo-lhe a generosa ambio que o dominava. Pela sua parte o mdico via 
em Meneses um homem que sabia ligar a austeridade dos anos  amabilidade de 


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cavalheiro, modesto nas suas maneiras, instrudo, sentimental. Da misantropia 
anunciada no encontrou vestgios.  verdade que em algumas ocasies Meneses 
parecia mais disposto a ouvir do que a falar; e ento o olhar tornava-se-lhe sombrio 
e parado, como se em vez de ver os objetos exteriores, estivesse contemplando a 
sua prpria conscincia. Mas eram rpidos esses momentos, e Meneses voltava 
logo aos seus modos habituais. 

No  um misantropo, pensava ento Estvo; mas este homem tem um 
drama dentro de si. 

A observao de Estvo adquiriu certo carter de verossimilhana quando 
uma noite em que se achavam no Teatro Lrico, Estvo chamou a ateno de 
Meneses para uma mulher vestida de preto que se achava em um camarote da 
primeira ordem. 

 No conheo aquela mulher, disse Estvo. Sabe quem ? 
Meneses olhou para o camarote indicado, contemplou a mulher por alguns 
instantes e respondeu: 

 No conheo. 
A conversa ficou a; mas o mdico reparou que a mulher duas vezes olhou 
para Meneses, e este duas vezes para ela, encontrando-se os olhos de ambos. 

No fim do espetculo, os dois amigos dirigiram-se pelo corredor do lado em 
que estivera a mulher de preto. Estvo teve apenas nova curiosidade, a 
curiosidade de artista: quis v-la de perto. Mas a porta do camarote estava fechada. 
Teria j sado ou no? Era impossvel sab-lo. Meneses passou sem olhar. Ao 
chegarem ao patamar da escada que d para o lado da Rua dos Ciganos, pararam 
os dois porque havia grande afluncia de gente. Da a pouco ouviu-se passo 
apressado; Meneses voltou o rosto; e dando o brao a Estvo desceu 
imediatamente, apesar da dificuldade. 

Estvo compreendeu, mas nada viu. 

Pela sua parte, Meneses no deu sinal algum. 

Apenas se desembaraaram da multido, o deputado encetou uma alegre 
conversa com o mdico. 

 Que efeito lhe faz, perguntou ele, quando passa no meio de tantas damas 
elegantes, aquela confuso de sedas e de perfumes? 
Estvo respondeu distraidamente, e Meneses continuou a conversa no 
mesmo estilo; da a cinco minutos a aventura do teatro tinha-se-lhe varrido da 
memria. 

CAPTULO IV 
Um dia Estvo Soares foi convidado para um baile em casa de um velho 
amigo de seu pai. 

A sociedade era luzida e numerosa; Estvo, embora vivesse muito 
arredado, achou ali grande nmero de conhecidas. No danou; viu, conversou, riu 
um pouco e saiu. 


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Mas ao entrar levava o corao livre; ao sair trouxe nele uma flecha, para 
falar a linguagem dos poetas da Arcdia; era a flecha do amor. 

Do amor? A falar a verdade no se pode dar este nome ao sentimento 
experimentado por Estvo; no era ainda o amor, mas bem pode ser que viesse a 
s-lo. Por enquanto era um sentimento de fascinao doce e branda; uma mulher 
que l estava produzira nele a impresso que as fadas produziam nos prncipes 
errantes ou nas princesas perseguidas, segundo nos rezam os contos das velhas. 

A mulher em questo no era uma virgem; era uma viva de trinta e quatro 
anos, bela como o dia, graciosa e terna. Estvo via-a pela primeira vez; pelo menos 
no se lembrava daquelas feies. Conversou com ela durante meia hora, e to 
encantado ficou com as maneiras, a voz, a beleza de Madalena, que ao chegar  
casa no pde dormir. 

Como verdadeiro mdico que era, sentia em si os sintomas dessa hipertrofia 
do corao que se chama amor e procurou combater a enfermidade nascente. Leu 
algumas pginas de matemticas, isto , percorreu-as com os olhos; porque apenas 
comeava a ler o esprito alheava do livro onde apenas ficavam os olhos: o esprito 
ia ter com a viva. 

O cansao foi mais feliz que Euclides: sobre a madrugada Estvo Soares 
adormeceu. 

Mas sonhou com a viva. 

Sonhou que a apertava em seus braos, que a cobria de beijos, que era seu 
esposo perante a Igreja e perante a sociedade. 

Quando acordou e lembrou-se do sonho, Estvo sorriu. 

 Casar-me! disse ele. Era o que me faltava. Como poderia eu ser feliz com 
o esprito receoso e ambicioso que a natureza me deu? Acabemos com isto; nunca 
mais verei aquela mulher... e boa noite. 
Comeou a vestir-se. 

Trouxeram-lhe o almoo; Estvo comeu rapidamente, porque era tarde, e 
saiu para ir ver alguns doentes. 

Mas ao passar pela Rua do Conde lembrou-se que Madalena lhe dissera 
morar ali; mas aonde? A viva disse-lhe o nmero; o mdico porm estava to 
embebido em ouvi-la falar que no o decorou. 

Queria e no queria; protestava esquec-la, e contudo daria o que se lhe 
pedisse para saber o nmero da casa naquele momento. 

Como ningum podia dizer-lhe, o rapaz tomou o partido de ir-se embora. 

No dia seguinte, porm, teve o cuidado de passar duas vezes pela Rua do 
Conde a ver se descobria a encantadora viva. No descobriu nada; mas quando ia 
tomar um tlburi e voltar para casa encontrou o amigo de seu pai em cuja casa 
encontrara Madalena. 

Estvo j tinha pensado nele; mas imediatamente tirou dali o pensamento, 
porque ir perguntar-lhe onde morava a viva era uma coisa que podia tra-lo. 

Estvo j empregava o verbo trair. 

O homem em questo, depois de cumprimentar ao mdico, e trocar com ele 
algumas palavras, disse-lhe que ia  casa de Madalena, e despediu-se. 

Estvo estremeceu de satisfao. 

Acompanhou de longe o amigo e viu-o entrar em uma casa. 

 ali, pensou ele. 

E afastou-se rapidamente. 


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Quando entrou em casa achou uma carta para ele; a letra, que lhe era 
desconhecida, estava traada com elegncia e cuidado: a carta recendia de 
sndalo. 

O mdico rompeu o lacre. 

A carta dizia assim: 

Amanh toma-se ch em minha casa. Se quiser vir passar algumas horas 
conosco dar-nos- sumo prazer. 

Madalena C... 

Estvo leu e releu o bilhete; teve idia de lev-lo aos lbios, mas 
envergonhado diante de si prprio por uma idia que lhe parecia de fraqueza, 
cheirou simplesmente o bilhete e meteu-o no bolso. 

Estvo era um pouco fatalista. 

Se eu no fosse quele baile no conhecia esta mulher, no andava agora 
com estes cuidados, e tinha conjurado uma desgraa ou uma felicidade, porque 
ambas as coisas podem nascer deste encontro fortuito. Que ser? Eis-me na dvida 
de Hamlet. Devo ir  casa dela? A cortesia pede que v. Devo ir; mas irei 
encouraado contra tudo.  preciso romper com estas idias, e continuar a vida 
tranqila que tenho tido. 

Estava nisto quando Meneses lhe entrou por casa. Vinha busc-lo para 
jantar. Estvo saiu com o deputado. Em caminho fez-lhe perguntas curiosas. 

Por exemplo: 

 Acredita no destino, meu amigo? Pensa que h um deus do bem e um 
deus do mal, em conflito travado sobre a vida do homem? 
 O destino  a vontade, respondia Meneses; cada homem faz o seu 
destino. 
 Mas enfim ns temos pressentimentos... s vezes adivinhamos 
acontecimentos em que no tomamos parte; no lhe parece que  um deus 
benfazejo que no-los segreda? 
 Fala como um pago; eu no creio em nada disso. Creio que tenho o 
estmago vazio, e o que melhor podemos fazer  jantar aqui mesmo no Hotel de 
Europa em vez de ir  Rua do Lavradio. 
Subiram ao Hotel de Europa. 

Ali haviam vrios deputados que conversavam de poltica, e os quais se 
reuniram a Meneses. Estvo ouvia e respondia, sem esquecer nunca a viva, a 
carta e o sndalo. 

Assim, pois, davam-se contrastes singulares entre a conversa geral e o 
pensamento de Estvo. 

Dizia por exemplo um deputado: 

 O governo  reator; as provncias no podem mais suport-lo. Os 
princpios esto todos preteridos; na minha provncia foram demitidos alguns 
subdelegados pela circunstncia nica de serem meus parentes; meu cunhado, que 
era diretor das rendas, foi posto fora do lugar, e este deu-se a um peralta 
contraparente dos Valadares. Eu confesso que vou romper amanh a oposio. 
Estvo olhava para o deputado; mas no interior estava dizendo isto: 

Com efeito, Madalena  bela,  admiravelmente bela. Tem uns olhos de 
matar. Os cabelos so lindssimos: tudo nela  fascinador. Se pudesse ser minha 


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mulher, eu seria feliz; mas quem sabe?... Contudo sinto que vou am-la. J  
irresistvel;  preciso am-la; e ela? que quer dizer aquele convite? Amar-me-? 

Estvo embebera-se tanto nesta contemplao ideal, que, acontecendo 
perguntar-lhe um deputado se no achava a situao negra e carrancuda, Estvo 
entregue ao seu pensamento respondeu: 

  lindssima! 
 Ah! disse o deputado, vejo que o senhor  ministerialista. 
Estvo sorriu; mas Meneses franziu o sobrolho.
Compreendera tudo.


CAPTULO V 
Quando saram, o deputado disse ao mdico: 

 Meu amigo, voc  desleal comigo... 
 Por qu? perguntou Estvo meio srio e meio risonho, no 
compreendendo a observao do deputado. 
 Sim, continuou Meneses; voc esconde-me um segredo... 
 Eu? 
  verdade: e um segredo de amor. 
 Ah!... disse Estvo; por que diz isso? 
 Reparei h pouco que, ao passo que os mais conversavam em poltica, 
voc pensava em uma mulher, e mulher... lindssima... 
Estvo compreendeu que estava descoberto; no negou. 

  verdade, pensava em uma mulher. 
 E eu serei o ltimo a saber? 
 Mas saber o qu? No h amor, no h nada. Encontrei uma mulher que 
me impressionou e ainda agora me preocupa; mas  bem possvel que no passe 
disto. A est.  um captulo interrompido; um romance que fica na primeira pgina. 
Eu lhe digo: h de me ser difcil amar. 
 Por qu? 
 Eu sei? custa-me a crer no amor. 
Meneses olhou fixamente para Estvo, sorriu, abanou a cabea e disse: 

 Olhe, deixe a descrena para os que j sofreram as decepes; o senhor 
est moo, no conhece ainda nada desse sentimento. Na sua idade ningum  
ctico... Demais, se a mulher  bonita, eu aposto que daqui a pouco h de dizer-me 
o contrrio. 
 Pode ser... respondeu Estvo. 
E ao mesmo tempo entrou a pensar nas palavras de Meneses, palavras que 
ele comparava ao episdio do Teatro Lrico. 

Entretanto, Estvo foi ao convite de Madalena. Preparou-se e perfumou-se 
como se fosse falar a uma noiva. Que sairia daquele encontro? Viria de l livre ou 


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cativo? J seria amado? Estvo no deixou de pens-lo; aquele convite parecia-lhe 
uma prova irrecusvel. O mdico entrando num tlburi comeou a formar vrios 
castelos no ar. 

Enfim chegou  casa. 

CAPTULO VI 
Madalena estava na sala acompanhada de um filho.
Ningum mais.
Eram nove horas e meia.


 Viria eu cedo demais? perguntou ele  dona da casa. 
 O senhor nunca vem cedo. 
Estvo inclinou-se.
Madalena continuou:


 Se me acha s,  porque, tendo enfermado um pouco, mandei desavisar 
as poucas pessoas que eu havia convidado. 
 Ah! mas eu no recebi... 
 Naturalmente; eu no lhe mandei dizer nada. Era a primeira vez que o 
convidava; no queria por modo algum arredar de casa um homem to distinto. 
Estas palavras de Madalena no valiam coisa alguma, nem mesmo como 
desculpa, porque a desculpa  fraqussima. 

Estvo compreendeu logo que havia algum motivo oculto. 

Seria o amor? 

Estvo pensou que era, e doeu-se, porque, apesar de tudo, sonhara uma 
paixo mais reservada e menos precipitada. No queria, embora lhe agradasse, ser 
objeto daquela preferncia; e mais que tudo achava-se embaraadssimo diante de 
uma mulher a quem comeava a amar, e que talvez o amasse. Que lhe diria? Era a 
primeira vez que o mdico achava-se em tais apuros. H toda a razo para supor 
que Estvo naquele momento preferia estar cem lguas distante, e contudo, longe 
que estivesse pensaria nela. 

Madalena era excessivamente bela, embora mostrasse no rosto sinais de 
longo sofrimento. Era alta, cheia, tinha um belssimo colo, magnficos braos, olhos 
castanhos e grandes, boca feita para ninho de amores. 

Naquele momento trajava um vestido preto. 

A cor preta ia-lhe muito bem. 

Estvo contemplava aquela figura com amor e adorao; ouvia-a falar e 
sentia-se encantado e dominado por um sentimento que no podia explicar. 

Era um misto de amor e de receio. 

Madalena mostrou-se delicada e solcita. Falou no merecimento do rapaz e 
na sua nascente reputao, e instou com ele para que fosse algumas vezes visit-la. 

s 10 horas e meia serviu-se o ch na sala. Estvo conservou-se l at s 
11 horas. 

Chegando  rua o mdico estava completamente namorado. Madalena 
tinha-o atado no seu carro, e o pobre rapaz nem vontade tinha de quebrar o jugo. 


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Caminhando para casa ia ele formando projetos: via-se casado com ela, 
amado e amante, causando inveja a todos, e mais que tudo feliz no seu interior. 

Quando chegou  casa, lembrou-se de escrever uma carta que mandaria no 
dia seguinte a Meneses. Escreveu cinco e rasgou-as todas. 

Afinal redigiu um simples bilhete nestes termos: 

Meu amigo. 

Voc tem razo; na minha idade cr-se; eu creio e amo. Nunca o pensei; 
mas  verdade. Amo... Quer saber a quem? Hei de apresent-lo em casa dela. H 
de ach-la bonita... Se o ...! 

A carta dizia muitas coisas mais; era tudo, porm, uma glosa do mesmo 
mote. 

Estvo voltou  casa de Madalena e as suas visitas comearam a ser 
regulares e assduas. 

A viva usava para com ele de tanta solicitude que no era possvel duvidar 
do sentimento que a dirigia. Pelo menos Estvo assim o pensava. Achava-se 
quase sempre s, e deliciava-se em ouvi-la. A intimidade comeou a estabelecer-se. 

Logo na segunda visita, Estvo falou-lhe em Meneses pedindo licena para 
apresent-lo. A viva disse que teria muito prazer em receber amigos de Estvo; 
mas pedia-lhe que adiasse a apresentao. Todos os pedidos e todas as razes de 
Madalena eram dignas para o mdico; no disse mais nada. 

Como era natural, ao passo que as visitas  viva eram mais assduas, as 
visitas ao amigo eram mais raras. 

Meneses no se queixou; compreendeu, e disse-o ao rapaz. 

 No se desculpe, acrescentou o deputado;  natural; a amizade deve 
ceder o passo ao amor. O que eu quero  que seja feliz. 
Um dia Estvo pediu ao amigo que lhe contasse o motivo que o tinha feito 
descrer do amor, e se algum grande infortnio lhe havia acontecido. 

 Nada me aconteceu, disse Meneses. 
Mas ao mesmo tempo, compreendendo que o mdico merecia-lhe toda a 
confiana, e podia no acredit-lo absolutamente, disse: 

 Por que neg-lo? Sim, aconteceu-me um grande infortnio; amei tambm, 
mas no encontrei no amor as douras e a dignidade do sentimento; enfim,  um 
drama ntimo de que no quero falar: limite-se a pate-lo. 
CAPTULO VII 
 Quando quiser que eu lhe apresente o meu amigo Meneses... dizia 
Estvo uma noite  viva Madalena. 
 Ah!  verdade; um dia destes. Vejo que o senhor  amigo dele. 
 Somos amigos ntimos. 
 Verdadeiros? 
 Verdadeiros. 

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Madalena sorriu; e como estava brincando com os cabelos do filho deu-lhe 
um beijo na testa. 

A criana riu alegremente e abraou a me. 

A idia de vir a ser pai honorrio do pequeno apresentou-se ao esprito de 
Estvo. Contemplou-o, chamou por ele, acariciou-o e deu-lhe um beijo no mesmo 
lugar em que pousaram os lbios de Madalena. 

Estvo tocava piano, e s vezes executava algum pedao de msica a 
pedido de Madalena. 

Nessas e noutras distraes l passavam as horas. 

O amor no adiantava um passo. 

Podiam ser ambos duas crateras prestes a rebentar a lava; mas at ento 
no davam o menor sinal de si. 

Esta situao incomodava o rapaz, acanhava-o, e fazia-o sofrer; mas 
quando ele pensava em dar um ataque decisivo, era exatamente quando se 
mostrava mais covarde e poltro. 

Era o primeiro amor do rapaz: ele nem conhecia as palavras prprias desse 
sentimento. 

Um dia resolveu escrever  viva. 

 melhor, pensava ele; uma carta  eloqente e tem a grande vantagem 
de deixar a gente longe. 

Entrou para o gabinete e comeou uma carta. 

Gastou nisso uma hora; cada frase ocupava-lhe muito tempo. Estvo 
queria fugir  hiptese de ser classificado como tolo ou como sensual. Queria que a 
carta no respirasse sentimentos frvolos nem maus; queria revelar-se puro como 
era. 

Mas de que no dependem s vezes os acontecimentos? Estvo estava 
relendo e emendando a carta quando lhe entrou por casa um rapazola que tinha 
intimidade com ele. Chamava-se Oliveira e passava por ser o primeiro janota do Rio 
de Janeiro. 

Entrou com um rolo de papel na mo. 

Estvo escondeu rapidamente a carta. 

 Adeus, Estvo! disse o recm-chegado. Estavas escrevendo algum 
libelo ou carta de namoro? 
 Nem uma nem outra coisa, respondeu Estvo secamente. 
 Dou-te uma notcia. 
 Que ? 
 Entrei na literatura. 
 Ah! 
  verdade, venho ler-te a primeira comdia. 
 Deus me livre! disse Estvo levantando-se. 
 Hs de ouvir, meu amigo; ao menos algumas cenas; dar-se- caso que 
no me protejas nas letras? Anda c; ao menos duas cenas. Sim?  pouca coisa. 
Estvo sentou-se.
O dramaturgo continuou:


 Talvez prefiras ouvir a minha tragdia intitulada  O punhal de Bruto... 
 No, no; prefiro a comdia:  menos sanguinria. Vamos l. 

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O Oliveira abriu o rolo, arranjou as folhas, tossiu e comeou a ler o que se 
segue, com voz pausada e fanhosa: 

CENA I


CSAR (entrando pela direita); JOO (pela esquerda)
CSAR  Fechada! A sinh j se levantou?
JOO  J, sim senhor; mas est incomodada.
CSAR  O que tem?
JOO  Tem... est incomodada
CSAR  J sei. (Consigo) Os incmodos do costume. (A JOO) Qual  ento o
remdio hoje?
JOO  O remdio? (Depois de uma pausa) No sei.
CSAR  Est bom, vai-te!
CENA II
CSAR, FREITAS (pela direita)
CSAR  Bom dia, sr. procurador...
FREITAS  De causas perdidas. S me ocupo em procurar as perdidas. Procurar o
que se no perdeu  tolice. A minha constituinte?
CSAR  Disse-me o Joo que est incomodada.
FREITAS  Mesmo para V. S.?
CSAR  (Sentando-se) Mesmo para mim. Por que me olha com esse olhar? Tem
inveja?
FREITAS  No  inveja,  admirao! De ordinrio ningum corresponde ao nome
que recebeu na pia; mas o sr. Csar, benza-o Deus, no desmente que traz um
nome significativo, e trata de ser nas pginas amorosas o que foi o outro nas
batalhas campais.
CSAR  Pois tambm os procuradores dizem coisas destas?
FREITAS  De vez em quando. (Indo sentar-se) V. S. admira-se?
CSAR  (Tirando charutos) Como no  de costume... quer um charuto?
FREITAS  Obrigado... Eu tomo rap. (Tira a boceta) Quer uma pitada?
CSAR  Obrigado.
FREITAS  (Sentando-se) Pois a causa da minha constituinte vai s mil maravilhas.
A parte contrria requereu assinao de dez dias, mas eu vou...
CSAR  Est bom, sr. Freitas, eu dispenso o resto; ou ento no me fale
linguagem do foro. Em resumo, ela vence?
FREITAS  Est claro. Tratando provar que...
CSAR  Vence,  quanto basta.
FREITAS  Pudera no vencer! Pois se eu ando nisto...
CSAR  Tanto melhor!
FREITAS  Ainda no me lembro de ter perdido uma s causa: isto , j perdi uma,
mas  porque nas vsperas de ganhar disse-me o constituinte que desejava perd-
la. Dito e feito. Provei o contrrio do que j tinha provado, e perdi... ou antes, ganhei,
porque perder assim  ganhar.
CSAR   a fnix dos procuradores.
FREITAS  (Modestamente) So os seus bons olhos...
CSAR  Mas a conscincia?
FREITAS  Quem  a conscincia?
CSAR  A conscincia, a sua conscincia?
FREITAS  A minha conscincia? Ah! essa tambm ganha.



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CSAR  (Levantando-se) Ah! tambm?...
FREITAS  (O mesmo) Tem V. S. alguma demandazinha?
CSAR  No, no, no tenho; mas, quando tiver, fique descansado, vou bater 
sua porta...
FREITAS Sempre s ordens de V. S.


CAPTULO VIII 
Estevo interrompeu violentamente a leitura, o que desgostou bastante ao 
poeta novel. O pobre candidato s musas mal pde balbuciar uma splica; Estvo 
mostrou-se surdo, e o mais que lhe concedeu foi ficar com a comdia para l-la 
depois. 

Oliveira contentou-se com isso; mas no se retirou sem recitar-lhe de cor 
uma fala do protagonista da tragdia, em versos duros e compridos, dando-lhe por 
quebra uma estrofe de uma poesia lrica, no estilo do Djinns de Vtor Hugo. 

Enfim saiu. 

Entretanto havia passado o tempo. 

Estvo releu a carta e quis ainda mand-la; mas a interrupo do poeta 
fora proveitosa; relendo a carta, Estvo achou-a fria e nula; a linguagem era 
ardente, mas no lhe correspondia ao fogo do corao. 

  intil, disse ele rasgando a carta em mil pedaos, a lngua humana h 
de ser sempre impotente para exprimir certos afetos da alma; tudo aquilo era frio e 
indiferente no que eu sinto. Estou condenado a no dizer nada ou a dizer mal. Ao p 
dela no tenho foras, sinto-me fraco... 
Estvo parou diante da janela que dava para a rua, no momento em que 
passava um antigo colega dele, com a mulher de brao, a mulher que era bonita, e 
com quem se casara um ms antes. 

Os dois iam alegres e felizes. 

Estvo contemplou aquele quadro com adorao e tristeza. O casamento j 
no era para ele aquele impossvel de que falava quando apenas tinha idias e no 
sentimentos. Agora era uma ventura realizvel. 

O casal que passara dera-lhe nova fora. 

  preciso acabar com isto, dizia ele; eu no posso deixar de ir quela 
mulher e dizer-lhe que a amo, que a adoro, que desejo ser seu marido. Ela amarme-
, se j me no ama: sim, ama-me... 
E comeou a vestir-se. 

Quando calava as luvas e lanava um olhar para o relgio, o criado trouxelhe 
uma carta. 

Era de Madalena. 

Espero, meu caro doutor, que no deixe de vir hoje; esperei-o ontem em 
vo. Desejo falar-lhe. 

Estvo acabou de ler este bilhete na escada, com tal pressa descia e tal 
urgncia tinha de achar-se em casa da viva. 

O que ele no queria era perder aquele assomo de coragem. 

Partiu. 


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Quando chegou  casa de Madalena achava-se esta  janela. Recebeu-o 
com a costumada afabilidade. Estvo desculpou-se como pde por no ter podido 
vir na vspera, acrescentando que s com desgosto do seu corao havia faltado. 

Que melhor ocasio do que era essa para lanar a bomba de uma 
declarao franca e apaixonada? Estvo hesitou alguns segundos; mas tomando 
nimo, ia continuar o perodo, quando a viva lhe disse: 

 Estava ansiosa por v-lo para comunicar-lhe uma coisa de certa 
importncia, e que s a um homem de honra, como o senhor, se pode confiar. 
Estvo empalideceu. 

 Sabe onde foi que eu o vi pela primeira vez? 
 No baile de ***. 
 No; foi antes disso; foi no Teatro Lrico. 
 Ah! 
 L o vi com o seu amigo Meneses. 
 Fomos algumas vezes l! 
Madalena entrou ento em uma longa exposio, que o rapaz ouviu sem 
pestanejar, mas plido e agitado por comoes ntimas. As ltimas palavras da viva 
foram estas: 

 Bem v, senhor; coisas destas s uma grande alma pode ouvi-las. As 
pequenas no as compreendem. Se lhe mereo alguma coisa, e se esta confiana 
pode ser paga com um benefcio, peo-lhe que faa o que lhe pedi. 
O mdico passou a mo pelos olhos, e apenas murmurou: 

 Mas... 
Neste momento entrava na sala o filhinho de Madalena; a viva levantou-se 
e trouxe-o pela mo at o lugar onde se achava Estvo Soares. 

 Se no por mim, disse ela, ao menos por esta criana inocente! 
A criana, sem nada compreender, atirou-se aos braos de Estvo. O moo 
deu-lhe um beijo na testa, e disse para a viva: 

 Se hesitei no foi porque duvidasse do que a senhora acaba de contarme; 
foi porque a misso  espinhosa; mas prometo que hei de cumpri-la. 
CAPTULO IX 
Estevo saiu da casa da viva agitado por diversos sentimentos, com passo 
trmulo e a vista turva. A conversa com a viva fora um longo combate; a ltima 
promessa foi um golpe decisivo e mortal. Estvo saa dali como um homem que 
acabava de matar as suas esperanas em flor; caminhava ao acaso, precisava de ar 


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e queria meter-se em um quarto sombrio; quisera ao mesmo tempo estar solitrio e 

no meio de imensa multido. 

No caminho encontrou Oliveira, o poeta novel. 

Lembrou-se que a leitura da comdia impedira a remessa da carta, e 
portanto poupou-lhe um tristssimo desengano. 

Estvo involuntariamente abraou o poeta com toda a efuso dalma. 

Oliveira correspondeu ao abrao, e quando pde desligar-se do mdico, 
disse-lhe: 

 Obrigado, meu amigo; estas manifestaes so muito honrosas para 
mim; sempre te conheci como um perfeito juiz literrio, e a prova que acabas de darme 
 uma consolao e uma animao; consola-me do que tenho sofrido, anima-me 
para novos cometimentos. Se Torquato Tasso... 
Diante desta ameaa de discurso, e sobretudo vendo a interpretao do seu 
abrao, Estvo resolveu-se a continuar caminho abandonando o poeta. 

 Adeus, tenho pressa. 
 Adeus, obrigado! 
Estvo chegou  casa e atirou-se  cama. Ningum o soube nunca, s as 
paredes do quarto foram testemunhas; mas a verdade  que Estvo chorou 
lgrimas amargas. 

Enfim que lhe dissera Madalena e que exigira dele? 

A viva no era viva; era mulher de Meneses; viera do Norte meses antes 
do marido, que s veio como deputado; Meneses, que a amava doidamente, e que 
era amado com igual delrio, acusava-a de infidelidade; uma carta e um retrato eram 
os indcios; ela negou, mas explicou-se mal; o marido separou-se e mandou-a para 

o Rio de Janeiro. 
Madalena aceitou a situao com resignao e coragem: no murmurou 
nem pediu; cumpriu a ordem do marido. 
Todavia Madalena no era criminosa; o seu crime era uma aparncia; 
estava condenada por fidelidade de honra. A carta e o retrato no lhe pertenciam; 
eram apenas um depsito imprudente e fatal. Madalena podia dizer tudo, mas era 
trair uma promessa; no quis; preferiu que a tempestade domstica casse 
unicamente sobre ela. 

Agora, porm, a necessidade do segredo expirara; Madalena recebeu do 
Norte uma carta em que a amiga, no leito da morte, pedia que inutilizasse a carta e o 
retrato, ou os restitusse ao homem que lhos dera. Esta carta era uma justificao. 

Madalena podia mandar a carta ao marido, ou pedir-lhe uma entrevista; mas 
receava tudo; sabia que seria intil, porque Meneses era extremamente severo. 

Vira o mdico uma noite no teatro em companhia de seu marido; indagara e 
soube que eram amigos; pedia-lhe pois que fosse mediador entre os dois, que a 
salvasse e que reconstrusse uma famlia. 

No era pois somente o amor de Estvo que sofria; era tambm o seu 
amor-prprio. Estvo facilmente compreendeu que no fora atrado quela casa 
para outra coisa.  verdade que a carta s chegara na vspera; mas a carta apenas 
vinha apressar a resoluo. Naturalmente Madalena pedir-lhe-ia, sem haver carta, 
algum servio anlogo quele. 


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Se tratasse de qualquer outro homem, Estvo recusaria o servio que lhe 
pedia a viva; mas tratava-se do seu amigo, de um homem a quem ele devia estima 
e servios de amizade. 

Aceitou, pois, a cruel misso. 

 Cumpra-se o destino, disse ele; hei de ir lanar a mulher que amo aos 
braos de outro; e por desgraa maior, em vez de gozar com este restabelecimento 
de concrdia domstica, vejo-me na dura situao de amar a mulher do meu amigo, 
isto , de fugir para longe... 
Estvo no saiu mais de casa nesse dia. 

Quis escrever ao deputado contando-lhe tudo; mas pensou que o melhor era 
falar-lhe de viva voz. Embora lhe custasse mais, era de mais efeito para o 
desempenho da sua promessa. 

Adiou, porm, para o dia seguinte, ou antes para o mesmo dia, porque a 
noite no lhe interrompeu o tempo, visto que Estvo no dormiu um minuto sequer. 

CAPTULO X 
Levantou-se da cama o pobre namorado sem ter conseguido dormir. Vinha 
nascendo o sol. 

Quis ler os jornais e pediu-os. 

J os ia pondo de lado, por haver acabado de ler, quando repentinamente 
viu o seu nome impresso no Jornal do Commercio. 

Era um artigo a pedido com o ttulo de Uma obra-prima. Dizia o artigo: 

Temos o prazer de anunciar ao pas o prximo aparecimento de uma 
excelente comdia, estria de um jovem literato fluminense, de nome Antnio Carlos 
de Oliveira. 

Este robusto talento, por muito tempo incgnito, vai enfim entrar nos mares 
da publicidade, e para isso procurou logo ensaiar-se em uma obra de certo vulto. 

Consta-nos que o autor, solicitado por seus numerosos amigos, leu h dias a 
comdia em casa do sr. dr. Estvo Soares, diante de um luzido auditrio, que 
aplaudiu muito e profetizou no sr. Oliveira um futuro Shakespeare. 

O sr. dr. Estvo Soares levou a sua amabilidade a ponto de pedir a 
comdia para ler segunda vez, e ontem ao encontrar-se na rua com o sr. Oliveira, de 
tal entusiasmo vinha possudo que o abraou estreitamente, com grande pasmo dos 
numerosos transeuntes. 

Da parte de um juiz to competente em matrias literrias este ato  honroso 
para o sr. Oliveira. 

Estamos ansiosos por ler a pea do sr. Oliveira, e ficamos certos de que ela 
far fortuna de qualquer teatro. 

O AMIGO DAS LETRAS 

Estvo, apesar dos sentimentos que o agitavam ento, enfureceu-se com o 
artigo que acabava de ler. No havia dvida que o autor dele era o prprio autor da 
comdia. O abrao da vspera fora mal interpretado, e o poetastro aproveitara-o em 
seu favor. Se ao menos no falasse no nome de Estvo, este poderia desculpar a 
vaidadezinha do escritor. Mas o nome ali estava como cmplice da obra. 


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Pondo de lado o Jornal do Commercio, Estvo lembrou-se de protestar, e 
ia j escrever um artigo quando recebeu uma cartinha de Oliveira. 

Dizia a carta: 

Meu Estvo. 

Lembrou-se um amigo meu de escrever alguma coisa a propsito da minha 
pea. Expliquei-lhe como se dera a leitura em tua casa, e disse-lhe como  que, 
apesar do vivo desejo que tinhas de ouvir l-la, interrompeste-me para ir cuidar de 
um doente. Apesar de tudo isto, o meu referido amigo contou hoje no Jornal do 
Commercio a histria alterando um pouco a verdade. Desculpa-o;  a linguagem da 
amizade e da benevolncia. 

Ontem entrei para casa to orgulhoso com o teu abrao que escrevi uma 
ode, e assim manifestou-se em mim a veia lrica, depois da cmica e da trgica. A 
te mando o rascunho; se no prestar, rasga-a. 

A carta tinha, por engano, a data da vspera. 

A ode era muito comprida; Estvo nem a leu, atirou-a para um canto. 

A ode comeava assim: 

Sai do teu monte,  musa! 

Vem inspirar a lira do poeta; 

Enche de luz a minha fronte ousada, 

E mandemos aos evos, 

Nas asas de uma estrofe ingente e altssona, 

Do caro amigo o animador abrao! No canto os altos feitos 

De Aquiles, nem traduzo os sons tremendos 

Dos rufos marciais enchendo os campos! 

Outro assunto me inspira. 

No canto a espada que d morte e campa; 

Canto o abrao que d vida e glria! 

CAPTULO XI 
Como havia prometido, Estvo foi logo procurar o deputado Meneses. Em 
vez de ir direito ao fim, quis antes sond-lo a respeito do seu passado. Era a 
primeira vez que o moo tocava em tal. Meneses no desconfiou, mas estranhou; 
mas tal confiana tinha nele que no recusou nada. 

 Sempre imaginei, dissera-lhe Estvo, que h na sua vida um drama.  
talvez engano meu, mas a verdade  que ainda no perdi a idia. 
 H, com efeito, um drama; mas um drama pateado. No sorria;  assim. 
Que supe ento? 
 No suponho nada. Imagino que... 
 Pede dramas a um homem poltico? 
 Por que no? 
 Eu lhe digo. Sou poltico e no sou. No entrei na vida pblica por 
vocao; entrei como se entra em uma sepultura: para dormir melhor. Por que o fiz? 
A razo  o drama de que me fala. 
 Uma mulher, talvez... 
 Sim, uma mulher. 
 Talvez mesmo, disse Estvo procurando sorrir, talvez uma esposa. 

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Meneses estremeceu e olhou para o amigo, espantado e desconfiado. 

 Quem lho disse? 
 Pergunto. 
 Uma esposa, sim; mas no lhe direi mais nada.  a primeira pessoa que 
ouve tanta coisa de mim. Deixemos o passado que morreu: parce sepultis. 
 Conforme, disse Estvo; e se eu pertencer a uma seita filosfica que 
pretenda ressuscitar os mortos, mesmo quando  um passado... 
 As suas palavras, ou querem dizer muito, ou nada. Qual  a sua 
inteno? 
 A minha inteno no  ressuscitar o passado unicamente;  repar-lo,  
restaur-lo em todo o seu esplendor, com toda a legitimidade do seu direito; o meu 
fim  dizer-lhe, meu caro amigo, que a mulher condenada  uma mulher inocente. 
Ouvindo estas palavras Meneses deu um pequeno grito. 

Depois levantando-se com rapidez pediu a Estvo que lhe dissesse o que 
sabia e como sabia. 

Estvo referiu tudo. 

Quando concluiu a sua narrao, o deputado abanou a cabea com aquele 
ltimo sintoma de incredulidade que  ainda um eco das grandes catstrofes 
domsticas. 

Mas Estvo ia armado contra as objees do marido. Protestou 
energicamente pela defesa da mulher; instou pelo cumprimento do dever. 

A ltima resposta de Meneses foi esta: 

 Meu caro Estvo, a mulher de Csar nem deve ser suspeitada. Acredito 
em tudo; mas o que est feito, est feito. 
 O princpio  cruel, meu amigo. 
  fatal. 
Estvo saiu. 

Ficando s, Meneses caiu em profunda meditao; ele acreditava em tudo, e 
amava a mulher; mas no acreditava que os belos dias pudessem voltar. 

Recusando, pensava ele, era ficar no tmulo em que tivera to brando sono. 

Estvo, porm, no desanimou. 

Quando entrou em casa, escreveu uma longa carta ao deputado exortando-o 
a que restaurasse a famlia um momento separada e desfeita. Estvo era 
eloqente; o corao de Meneses com pouco se contentava. 

Enfim, nesta misso diplomtica, o mdico houve-se com suprema 
habilidade. No fim de alguns dias dissipara-se a nuvem do passado, e o casal 
reunira-se. 

Como? 

Madalena soube das disposies de Meneses e recebeu o anncio de uma 
visita de seu marido. 

Quando o deputado preparava-se para sair, vieram dizer-lhe que uma 
senhora o procurava. 

A senhora era Madalena. 

Meneses nem quis abra-la; ajoelhou-se-lhe aos ps. 

Tudo estava esquecido. 


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Quiseram celebrar a reconciliao, e Estvo foi convidado para l passar o 
dia em companhia dos seus amigos, que lhe deviam a felicidade. 

Estvo no foi. 

Mas no dia seguinte Meneses recebeu este bilhete: 

Desculpe, meu amigo, se no vou despedir-me pessoalmente. Sou obrigado 
a partir repentinamente para Minas. Voltarei daqui a alguns meses. 

Estimo que sejam felizes, e espero que no se esqueam de mim. 

Meneses foi apressadamente  casa de Estvo, e ainda o achou 
preparando as malas. 

Achou singular a viagem, e mais singular o bilhete; mas o mdico no 
revelou por modo nenhum o verdadeiro motivo da sua partida. 

Quando Meneses voltou, comunicou  mulher as suas impresses; e 
perguntou se ela compreendia aquilo. 

 No, respondeu Madalena. 
Mas tinha compreendido enfim. 

Nobre alma! disse ela consigo. 

Nada disse ao marido; nisso mostrava-se esposa solcita pela tranqilidade 
conjugal; mas mostrava-se sobretudo mulher. 

Meneses no foi  Cmara durante muitos dias, e no primeiro paquete 
seguiu para o Norte. 

A ausncia transtornou algumas votaes, e a sua partida logrou muitos 
clculos. 

Mas o homem tem o direito de procurar a sua felicidade e a felicidade de 
Meneses era independente da poltica. 

FIM 


